Ads 468x60px

.

.

sábado, 14 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049


BLADE RUNNER 2049
DIREÇÃO: Dennis Villeneuve
ELENCO: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright e Jared Leto


Trinta anos se passam e a sociedade cada vez mais em extinção, pode atingir níveis caóticos, caso o policial K (Ryan Gosling), do Departamento de Polícia de Los Angeles, consiga escancarar um enorme segredo que assola o universo. Diante disso, ele inicia uma grande busca pelo policial Deckard (Harrison Ford), que se ressocializado, pode mudar os rumos do planeta.


Nunca neguei de ninguém uma célebre ojeriza que eu tinha de Ridley Scott, diminuída em 2015 com a sua obra-prima Perdido em Marte. Pena que este filme pouco será lembrado em toda a sua filmografia, que tem o seu ápice em Blade Runner – marco cinematográfico de 1982. Mais de trinta anos se passaram para que uma aguardada sequência lotasse as salas de cinema do mundo inteiro. No ato, a direção desta vez ficou com o cineasta canadense Dennis Villeneuve, responsável por excelentes filmes, como Prisioneiros, Sicario e A Chegada. Blade Runner 2049 está sendo elogiado mundo afora, mas admito ter me agradado menos do que esperava. Vai ver é o fantasma Ridley Scott me assombrando de novo.

Não me vejo impedido de começar por aquilo que realmente a obra tem de melhor, faz-se justo elucidar a noção que a parte técnica de Blade Runner 2049 tem de imaginar e construir um impressionante futuro diante dos melhores elementos cinematográficos, disponibilizados neste início de século XXI. Logo, os efeitos visuais, a mixagem de som e a edição de som proporcionam um ar de potência bastante dignos para um filme do gênero. Em contrapartida, vale ressaltar que para uma obra de ficção científica, não foram esses segmentos que mais chamaram a atenção, e sim o trabalho de trilha sonora de Hans Zimmer que, em parceria com Benjamin Wallfisch, entrega uma louvável ousadia, que absorve inclusive o que há de tenebroso na trama, fazendo de 2017 um ano memorável para ele, visto que vale lembrar a sua linda trilha em Dunkirk. Aliada a essa qualidade, tem-se a brilhante fotografia do mestre Roger Deakins, impactante ao extremo e impressionando pela eficácia da faceta sombria que o filme propõe, mesclada a um uso forte de cores, que inclusive ao desaparecerem com os personagens, reforçam o teor de mistério da película.

A concepção do protagonista vivido pelo cada vez mais merecidamente celebrado Ryan Gosling, consegue criar o quebra-cabeça perfeito de um homem temido e requisitado por muitos, quando também é um estranho para os mesmos, justificando isso pela própria vida que leva, que no campo amoroso, mostra para o espectador o que seria uma versão futurística de Ela, filme que em 2014 rendeu o Oscar de Roteiro Original para Spike Jonze. O roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último responsável pela área no filme da década de 1980) sabe construir todo o ar enigmático que justifica quão delicada é uma situação onde uma grande “regra de vida” em cima da evolução de uma espécie, pode sofrer uma modificação drástica, e que a ideia de socializá-la é contestada por partes, visto que por mais necessária que seja, uma guerra civil pode ser construída. Querendo ou não, noções de responsabilidades, por mais gananciosos alguns personagens sejam, têm que ser trabalhadas. Será que só de replicantes a sociedade humana de Blade Runner 2049 pode manter-se em sobrevivência? 

Sábio na arte de mesclar a situação principal com histórias cruzadas, o elo direção/produção/roteiro investe na questão familiar e seus valores, ao extrair o que de mais dramático o filme poderia ter e aquilo que o seu roteiro proporcionava para tal, e assim reinserem Harrison Ford na franquia, desta vez como coadjuvante, mas fundamental para uma trama que conseguiu extrair do veterano ator uma presença forte e brilhantemente executada (num contexto parecido com o de Sylvester Stallone em Creed – Nascido para Lutar), para um elenco que também contou com excelentes nomes, como o de Robin Wright, Jared Leto e, para uma grata surpresa de minha parte, o somali Barkhad Abid, que não o via desde Capitão Philips.

O que justifica o meu apreço não ter sido tão forte por esse filme, é o fato dele ter uma duração notavelmente exagerada. Foram desnecessárias 2 horas e 43 minutos que comprometeram toda a objetividade que Blade Runner 2049 poderia ter, ao mesmo tempo que prejudicou a agilidade de seu ritmo, que mais curto, com certeza exploraria mais vorazmente sequências de ação que poderiam substituir momentos aborrecidos, que por sinal foram poucos, porém suficientes para que não despertasse em mim o sentimento de que esse é um dos melhores filmes do ano e mais um marco na carreira de Dennis Villeneuve. Uso com bastante força a primeira pessoa, porque reitero que é fato que a maioria dos críticos estão aplaudindo de pé essa obra, e não me regozijo em ser a exceção da regra justamente com esse filme. Ainda ouviremos falar dele, até mesmo porque a parte técnica faz por merecer. E se bobear, ele pode até entrar para a história. E sabem onde esse ponto me interessa? Na chance de Blade Runner 2049 ser o primeiro filme a render um Oscar de fotografia para Roger Deakins. Pelo menos na parte detrás das câmaras, o final pode ser feliz para um de seus protagonistas. 


domingo, 8 de outubro de 2017

O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS


O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS
DIREÇÃO: Sofia Coppola
ELENCO: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e Colin Farrel


Em meio à guerra, um soldado está ferido no meio de um bosque e acaba por ser encontrado por uma garota que reside em uma casa só com mulheres, que são doutrinadas de maneira moralista. Cientes que deviam acolher o homem, elas passam a cultivar sentimentos bons e ruins para/com ele, despertando sensações que jamais pensaram que poderia existir.


Baseado no livro de Thomas Cullinan, lançado em 1966, e que resultou em um filme produzido cinco anos depois, protagonizado por Clint Eastwood, esta nova versão de O Estranho que nós Amamos é o ápice da tentativa gananciosa da diretora Sofia Coppola (que também entregou Maria Antonieta, As Virgens Suicidas e ganhou o Oscar de Roteiro por Encontros e Desencontros) em acreditar que já pode elevar o grau de dificuldade de suas películas, embarcando em obras mais delicadas, diante de uma carreira que priorizou comédias e dramas açucarados. Sua firmeza ao comandar a obra é visível e admirável, digna de prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, mas não é suficiente para pôr fim a instabilidade de sua filmografia.

Buscando fazer um filme detalhista em todos segmentos, Sofia absorve a capacidade que a sétima arte tem de criar um clima sombrio de guerra, e o prólogo de O Estranho que nós Amamos expõe uma situação em que pessoas devem manter seus hábitos normais, mesmo com um som de fundo que nos remete aos momentos mais sangrentos de uma batalha. Abrindo mão de uma trilha sonora, denotando toda a frieza e reclusão da trama, o filme tem a perspicácia de não se perder no desenvolvimento dos personagens femininos, visto que elas, mesmo ferindo seus princípios ao adotar um homem ferido, não descartavam a maneira dura de ser, para não deixar com que ele pudesse vir a tomar conta da situação desde o princípio, já que vale ressaltar que em séculos passados, as mulheres detinham bem menos poder que hoje, e governar um lar era algo simplesmente inconcebível.

O desenrolar da história, mesmo buscando uma união entre as protagonistas, conduz o espectador para um ambiente aparentemente religioso, mas que as pessoas ali incutidas se deixam levar pelos desejos, pelas paixões e pelas traições. Ciente da forte trama que tinha em mãos, Sofia Coppola concede mais poder para o antagonismo e cria para o espectador verdadeiros enigmas em cima de fatos, que por sinal são bem detalhados, mas que não eliminam a tensão, visto que as coisas tendem a piorar para as mulheres, mas a diretora sabe que apesar dos pesares recentes, as mesmas são unidas, por isso prepara algo impactante para o desfecho da trama.

O elenco da obra traz figuras carimbadas dos filmes da filha de Francis Ford Coppola, como Kirsten Dunst e Elle Fanning, que transbordam maturidade em suas performances, dotadas de trejeitos que assumem o caráter de suas personagens, que veem tronar-se mais fortes as personalidades que elas tinham dentro de si. Grande nome do filme, Nicole Kidman, mesmo com todas as suas polêmicas em torno do botox, consegue usar e abusar de expressões faciais que escancaravam a rigidez de uma pessoa que tinha uma grande responsabilidade em mãos, e mesmo quando via situações com tendências negativas, não perdia a compostura e mostrava a dureza e frieza que uma líder de um grupo como aquele precisava ter.

Forte e delicado ao mesmo tempo, O Estranho que nós Amamos, mesmo tendo alguns ingredientes para tal, não consegue ser um filme aborrecido, mas faz-se justo voltar a instabilidade da carreira de Sofia Coppola, para justifica-la alertando para a baixa memorabilidade deste seu último filme, que mesmo tendo um saldo positivo, não consegue (analisando o ano de 2017) mostrar-se superior a obras comerciais, como Mulher Maravilha e até mesmo It – A Coisa. Logo, mesmo com suas qualidades, no final da história, acaba por ser só mais um filme.