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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O PROCESSO


O PROCESSO
DIREÇÃO: Maria Augusta Ramos


O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff foi o mais turbulento momento de uma forte crise política nacional, que não mostra sinais de cessão. E como em todo fato histórico, há uma grande curiosidade sobre como estavam os bastidores de todo esse período, e é justamente isto que esse filme traz à tona.


Em outubro de 2014, Dilma Rousseff foi reeleita Presidenta do Brasil, ao derrotar o senador mineiro Aécio Neves por uma diferença mínima para os padrões nacionais. Tal fato dividiu o país, politicamente falando, e escândalos de corrupção envolvendo diversos membros do governo reeleito, desencadeou diversas manifestações Brasil afora, que, cada vez mais, ganhavam mais adeptos, e a ideia de um novo impeachment no executivo federal passava a ter mais força. No final de 2015, o então Presidente da Câmara Eduardo Cunha, denunciado na Operação Lava Jato, dá início ao processo de impedimento, acusando a então Presidenta de ter cometido pedaladas fiscais e edição de decretos sem a aprovação do Congresso.

Despindo-se dos mais tradicionais esquemas de construção de um documentário, a cineasta brasiliense Maria Augusta Ramos, investe nas mais fortes cenas que marcaram esse período e as mescla com aquilo que a nação brasileira não teve acesso, independente de lado. A turbulência da situação e o temor são dois fatores que mais chamam a atenção, para um momento que, mesmo almejado pela maioria dos brasileiros, ainda não conseguiu, dois anos depois, pôr fim ao caos político nacional.

Um silencioso sobrevoo na Esplanada dos Ministérios é um retrato de uma população ciente de um momento que seria vergonhoso independente de resultado; enquanto dentro do Câmara dos Deputados, os parlamentares partiam para agressões físicas ao estilo asiático, para depois ecoarem gritos de “Não vai ter golpe”, “Fora Dilma”, “Voto pela família”, “Voto pela democracia”, “Em memória do Coronel Ustra”, “Pelos militares de 64”, “Cunha, o senhor é um gângster”.

Explorando o dia seguinte a cada episódio polêmico em Brasília, O Processo traz uma faceta política que se pergunta: “O que está acontecendo? O que estamos fazendo?”. Não há como dar respostas, o negócio é ir para a guerra. E diante de imagens já conhecidas, o filme migra para dentro dos gabinetes dos senadores Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, que sendo os dois mais poderosos petistas no maior órgão legislativo federal, se preparavam para as batalhas, nas quais eles mesmo admitiam que era um jogo de cartas marcadas, criado em cima de uma base que uma parte garantia ser jurídica, outra parte negava, e um terceiro grupo via muita desproporcionalidade entre acusação e punição.

Focalizando o outro lado da situação, mesmo sabendo que o pedido de impeachment era assinado por três juristas, Maria Augusta Ramos acompanha a ideia de que Janaína Paschoal foi o centro das atenções desse processo, e a molda como uma verdadeira e questionável popstar, que fora das audiências, posava para fotos e dava entrevistas sobre diversos assuntos. Curiosamente, no tocante que Eduardo Cunha parecia ser a pessoa que carregaria o bônus da situação, restou a ele ser uma espécie de “boi de piranha”, devorado pela forte arcada dentária da república de Curitiba.

Mesmo tendo dado total destaque a cada segundo daqueles turbulentos meses, houve momentos em que a imprensa era sim jogada para escanteio, sem poder presenciar reuniões estratégicas que pareciam discutir novos nortes para a situação, visto que o então Presidente em exercício Michel Temer não conseguia atingir a mínima popularidade possível, derrubada ainda mais pelo áudio do seu braço-direito Romero Jucá, que indicava o impeachment como um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, para estancar uma sangria, que nada mais era que a morte anunciada de muitos políticos não-petistas, que se viam encrencados com a Lava Jato.

Enquanto isso, O Processo migra para a rotina, em pouco mais de três meses, da Presidenta afastada no Palácio da Alvorada, recebendo jornalistas do mundo inteiro, esbanjando força e resistência, e mostrando um lado poliglota que poucos sabiam existir. Nos bastidores disso, o senado petista realizava a autocrítica necessária, mas que todos se negavam a fazer em público; e, aliado a isso, a ciência de que, mesmo que Dilma escapasse da cassação, ela já não tinha mais força no Congresso, que sustentasse a sua governabilidade.

Ânimos cada vez mais a flor da pele. Nem parecia ser o Senado mais pacífico que a Câmara, que todos os brasileiros conhecem. Não há mais como fugir! 61 senadores aprovam o impeachment de Dilma, mas a maioria lhe nega a perda dos direitos políticos. A confirmação de algo que já era uma realidade desde quando a tão difícil reeleição veio.

O Processo escancara com primor, utilizando apenas imagens, testemunhando os diálogos e abrindo mão de depoimentos de ambos os lados, que o problema é bem maior. Um sopro de paz não atingiu o coração de ninguém. Dalton Trumbo dizia que no McCarthysmo americano, todos eram vítimas. Talvez, na triste atual composição política nacional, o fato pode ser justamente o contrário: todos são culpados. Mesmo com os riscos, deixar pra trás e seguir em frente pode ser menos pior para todos.


terça-feira, 4 de setembro de 2018

HEREDITÁRIO


HEREDITÁRIO   
DIREÇÃO: Ari Aster
ELENCO: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff e Milly Shapiro


Uma idosa reclusa morre e isso faz com que sua família sofra uma grande transformação. Eles passam a serem dependentes das pioras características que essa senhora tinha em vida. Quando está mais claro que um trágico futuro os reserva, fica praticamente impossível para essas pessoas não optarem por aquilo que há de mais obscuro para tentar se livrarem daquilo que as atormenta.


Será que estamos sendo um tanto quanto exagerados quando pensamos que no clube onde estão O Exorcista, Psicose, O Silêncio dos Inocentes, Carrie – A Estranha, dentre outros, podem serem adicionadas obras recentes, como Corra! e Um Lugar Silencioso? Pelo sim ou pelo não, a única certeza é que o cinema de terror, que na década passada tinha bem mais cara de caça-níquel, hoje vive um momento especial, repleto de excelentes produções, que acima de tudo impactam por uma originalidade que há muito tempo era necessária na sétima arte. Dando uma bela continuidade neste áureo momento do horror cinematográfico, temos Hereditário.

Dirigido pelo desconhecido diretor Ari Aster, o filme, de maneira interessante, tem um foco inicial numa maquete, o que para muitos pode ser algo qualquer normal ou um simples elemento cenográfico, mas na verdade não deixa de ter algo metafórico nela: o quão bom seria se tudo fosse algo tão pequeno. Acontece que pequeno somos apenas nós, não nossos problemas. A vida nos prega cada peça, e o roteiro escrito pelo próprio cineasta não economiza no que há de mais negativo no fato de estarmos sempre vulneráveis àquilo que tanto tememos. Só perder a mãe já é algo terrível, mas os dramas como um todo continuam a serem relatados, e infelizmente cresce a certeza de que novos virão.

Os aplausos a direção de Aster crescem assim como a sua coragem ao eliminar efêmeros personagens, que desde o seu início mostravam o quão fundamentais seriam para a trama. No executar de escolhas arriscadas, o diretor consegue uma dosagem incrível de uma simplicidade juvenil com uma tragédia de gigantescas proporções em inúmeros sentidos. Como aquilo será noticiado? Nem o próprio filme se deu ao trabalho, pois não há como explicar. A difícil tarefa de deixar a vida continuar torna-se cada vez mais impossível, já que diante de uma sucessão de fatos no mínimo lamentáveis, viver não é mais algo que importe.

A fotografia de Pawel Pogorzelski em Hereditário, investe num forte escuro que denota um luto eterno, em meio a uma natural busca por culpados, um tanto quanto inútil, pois como o próprio filme afirma: “Não há perdão sem admissão de culpa”. Com o medo passando a ser constante, assim como os piores exemplos de alucinações, o filme, para uma obra do gênero, consegue sobressair-se ao mostrar que o psicológico pode ser pior que o macabro, e a atuação espetacular da atriz australiana Toni Collette (de O Sexto Sentido) consegue exibir com força uma faceta que escancara que viver toda aquela situação não é nem um terço do que um cidadão consciente possa imaginar.

Ciente que a racionalidade e a coerência é mais importante que a felicidade em um contexto, Ari Aster enaltece um medo que ganha forma, e num mundo cada vez mais contraditório e anormal, qualquer ato sem noção vale para se livrar do tormento, afinal, em Hereditário, o inferno astral ganha sombrios ares literais.