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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

DOENTES DE AMOR



DOENTES DE AMOR
DIREÇÃO: Michael Showalter
ELENCO: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter e Ray Ramone


Kumail é um paquistanês que está nos Estados Unidos trabalhando como motorista de UBER e se apresenta em espetáculos de stand up comedy. Em um desses, ele conhece a universitária Emily, onde começam um belo romance, que tenta ser maior que as diferenças culturais existentes entre eles. Quando uma doença misteriosa atinge a moça, chega a hora de Kumail lutar acima de tudo por ela e pela vida dela, derrotando todos os entraves que afetam o relacionamento.


Tem uma passagem muito interessante em Lisbela e o Prisioneiro, quando a protagonista, dentro de uma sala de cinema, diz o seguinte: “Adoro essa parte. A luz vai se apagando, devagarzinho. O mundo lá fora vai se apagando, devagarzinho. Os olhos da gente vão se abrindo. Daqui a pouco a gente nem vai lembrar que está aqui”. Isso remete ao cinema como uma espécie de refúgio para muita gente, inclusive para mim. O envolvimento que se tem com um filme visto nas telonas é capaz de fazer com que alguém esqueça todos os problemas que está a passar na vida, principalmente quando o produto acompanhado é uma obra, que em doses sem um pingo de exagero, diverte e emociona ao mesmo tempo. Doentes de Amor, com sua deliciosa simplicidade, marcou a sétima arte em 2017.

Dirigido por Michael Showalter, que tem uma curta carreira como cineasta, mas sempre trabalhou com a arte, o filme trouxe para a sua produção, uma responsabilidade muito grande em seu executar, visto que ele fora escrito por Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, que é o próprio casal retratado na obra, e ainda por cima, Kumail interpreta a ele mesmo no protagonismo da trama. Logo, Doentes de Amor traz em sua concepção uma estrutura em que os próprios envolvidos nos fatos reais (perdoem a redundância) estão diretamente ligados a ela, ou seja, poderia haver a falta de um olhar diferenciado que contribui em qualquer projeto. Se as interferências ocorreram ou não, fica a dúvida, mas o saldo do filme é tão positivo que faz de Kumail e Emily um casal exemplo de humildade ou uma bela exceção à regra.

Curiosamente o filme tem um motorista de uber e stand up comedian como personagem principal. É fato que na vida real, multiplicam-se os exemplos de pessoas que seguem tais profissões, mas vale ressaltar que eles pouco são retratados na sétima arte. Tendo responsabilidade com a fidelidade aos fatos, o roteiro sequer esconde dotes de antipatia incutidos em Kumail e faz uma ampla abordagem na rigidez de uma típica família paquistanesa, não só em seus mais simples costumes, mas também na maneira como são contraídos casamentos entre pessoas dessa nacionalidade. Sem resguardos, a situação chega ao ápice de inclusive assustar.

Assim, logo vem ao espectador as questões humanitárias que faz com que sejam repudiadas todas as iniciativas de se contrapor a liberdade que um ser tem de fazer com a sua vida o que quiser, inclusive se casar com quem bem entender. E só pelo fato de Kumail estar se envolvendo com uma americana, já é positivo aos olhos de quem vê, e Doentes de Amor cresce no momento em que o casal protagonista se apresenta com uma doçura adorável, que faz com que qualquer pessoa venha a torcer pelos dois. E só o início desse romance, ironicamente nos faz rir mais que qualquer apresentação stand up da obra, onde a comicidade até em questões fisiológicas nos faz remeter até a vida amorosa de qualquer um.

Sem qualquer prejuízo, Doentes de Amor muda da comédia para o drama, quando um grave de problema de saúde atinge Emily, que não economiza em seu status de chocante, diante dos mistérios em volta dele e a maneira como se agravava. Será que ela sobreviverá? Se sim, como escapará? Os contrastes familiares ficam evidentes, e todos passam a estar tão anestesiados com a situação quanto o próprio casal. O que se deve fazer no momento como esse? Parece que tudo é uma jornada de conhecimento a si próprio, a ponto de fazer com que Kumail deixe de fazer piada para desabafar sobre a própria vida, numa cena que é mais impactante que qualquer discussão se aquilo foi um clichê mal-usado pelo filme.

O paquistanês finalmente descobriu a si próprio como uma pessoa que se importa bastante com a sua família, ao mesmo ponto em que também pode tranquilamente se importar com o próximo, mas que acima de tudo, buscar seguir o seu rumo era mais fundamental do que se deixar viver como uma marionete.

Assim, aplausos para a atuação de Kumail Nanjiani, que soube dar a diversão e a emoção exata ao personagem, como se fosse alguém desconhecido para ele. E no segmento de elenco, louva-se também a poderosa atuação de Holly Hunter, que no papel da sogra do paquistanês, faz um elo de força e austeridade, sem fazer questão de agradar a ninguém, para caracterizar uma mulher que vivia algo que doía mais nela do que na própria filha adoentada.

Com uma bela dose de regozijo em seu desfecho, Doentes de Amor soube trabalhar com maestria todos os sentimentos que a obra dispõe, fazendo com que os personagens sejam sujeitos memoráveis, e que o filme seja, sem sombra nenhuma de dúvidas, o melhor romance do ano.


domingo, 3 de dezembro de 2017

VICTORIA & ABDUL - O CONFIDENTE DA RAINHA



VICTORIA & ABDUL - O CONFIDENTE DA RAINHA
DIREÇÃO: Stephen Frears
ELENCO: Judi Dench, Ali Fazal, Olivia Williams e Michael Gambom


No século XIX, o Reino Unido detinha um poderio sobre diversas nações, bem maior que hoje. Sendo a Índia um desses países subalternos, ficou designado que dois jovens indianos viajariam à Londres para servir à Rainha Victoria. A adaptação a nova localidade e a postura dos súditos perante a realeza não foram bem aceitos pelos dois. Uma quebra de protocolo por parte de Abdul, faz com que isso chame a atenção da rainha, que logo quer saber quem é esse ousado sujeito. Incrivelmente, uma bela amizade surge, mas tal fato em muito desagrada a família real inglesa.


Ninguém pode negar o quanto a família real britânica, do início a sua contemporaneidade, chama a atenção de todo mundo, e cada vez mais desperta a curiosidade geral, independentemente se somos apreciadores do regime monarquista ou se não entendemos como alguém pode ganhar poder sobre um país inteiro por causa de seu sangue. Se passar para o cinema as histórias já conhecidas do Palácio de Buckingham e suas adjacências faz com que muitos vão ao cinema, imagina entregar uma trama inédita da popular Rainha Victoria? Felizmente, filmes dessa linha, podem até não ser espetaculares, mas dificilmente dão errado.

Não à toa, a escolha certeira foi de escalar Stephen Frears para dirigir Victoria & Abdul – O Confidente da Rainha. Logo ele, que tem uma segurança enorme ao levar a família real para as telonas, como em A Rainha (que lhe rendeu uma de suas três indicações ao Oscar) e não hesita em colocar em seus projetos, as mais poderosas atrizes do mundo, em especial as inglesas. Sendo assim, não é difícil ver Judi Dench em suas obras, como Philomena e Senhora Henderson Apresenta. Amparado pelo bom roteiro de Lee Hall (de Billy Elliot e Cavalo de Guerra), Frears acha espaço na película para destacar situações cômicas, como o hábito alimentar da realeza, além de investir no ato de como a Rainha Victoria tinha o dom de amedrontar o próximo. Assim, nessa dosagem, o filme não se transformou em um dramalhão cansativo.

Victoria & Abdul – O Confidente da Rainha também não abre mão do poderio publicitário da sétima arte e promove a Índia, seus pontos turísticos (como o Taj Mahal), sua cultura e até a culinária, com foco à manga – fruta tropical que os brasileiros conhecem muito bem. Focalizando o filme em seu objetivo central, Stephen Frears mostra-se tão ousado e corajoso como o jovem Abdul, ao ambientar sua obra num sistema de gigantesca periculosidade para um sujeito pobre, que, em outras palavras, estava se metendo em um ninho de cobras, e no que se pode apostar que esse indiano poderia ser um aproveitador e/ou bajulador, que quis crescer em cima da solidão de uma rainha com a idade já avançada e que ligava um sinal de alerta na linha sucessória, há de admitir que em certos momentos, Abdul se arriscou demais ao manter sua personalidade verdadeira, como ao trazer questões como a sua religião para o vínculo com a rainha. Uma retaliação poderia ter sido fatal.

Assim, a trama favoreceu a humanização da Rainha Victoria (que detém o segundo maior reinado da história britânica, perdendo apenas a atual rainha. Elizabeth II, no caso), que, mesmo bastante idosa, ainda se impunha como chefe de estado e mostrou-se principalmente tolerante com a comunidade muçulmana, gerando a ira de grande parte dos ingleses, inclusive seu filho mais velho - fato que nos dá embasamento para medir desde quando o preconceito religioso impera neste mundo, e em qual época se tornou mais grave.

Conseguindo ser levemente divertido, seguindo a linha feel good movie, Victoria & Abdul – O Confidente da Rainha ainda conta com uma linda trilha sonora de Thomas Newman, que engrandece principalmente os belos momentos de companheirismo da rainha com o indiano, onde mesmo com bastante pressão, ela se mostra uma mulher claramente compreensiva, diante de tudo que já passara na vida e na confiança que agora ela tinha em Abdul. E neste tocante, vale enaltecer a grande atuação da dama Judi Dench, que não perde sua forte compostura em meio às oscilações entre o poder e a fragilidade da rainha, a alegria e a tristeza, o domínio e sua humanidade, que no geral, fez com que a personagem histórica caísse no gosto de quem assiste a obra.

Num desfecho que focaliza o fim do duradouro reinado da Rainha Victoria, sem surpreender com o que estava reservado a Abdul, Stephen Frears ainda se dá corretamente ao direito de investir numa separação mais propícia para que sejam eternizadas as situações de amparo, felicidades e confidência, nas quais a mulher mais poderosa do mundo e um pobre imigrante se propuseram a passar juntos, em uma sessão de puro regozijo para o espectador que pôde conferir Victoria & Abdul – O Confidente da Rainha.